Chupa Toda!!!
Acordo como em qualquer dia. Pessoa comum, bem apessoada, pai de família, mas hoje amanheço diferente. Como se fosse um personagem de Kafka, sofro uma metamorfose. Sou um folião.
Olho para o lado e vejo o troféu tão desejado. São dois, bem passados a ferro, um para mim e outro para minha rainha: a camisa do Camarote de Daniela. Levanto para o banho especial, afinal é carnaval. Barbeado, entro no chuveiro e inicio o ritual. Muito sabão e xampu com uma música lá longe na cabeça. Será verdade? É Ivete que canta no meu chuveiro. “Chupa Toda”. O banho dura quarenta minutos, afinal, banhar-se com a musa do carnaval cantarolando em sua mente não é para qualquer um.
Com a energia renovada, noto que, nos troféus, aparecem adereços. Colares, fitinhas e tudo que brilha. Faz parte da folia. Como bom folião, preparo o tira-gosto para esperar a hora de ir para o camarote. “Filha, bote uma musiquinha para animar”, digo. Abrindo a primeira do dia, escuto uma melodia conhecida. Não diga: é Chupa Toda! “Aumenta o som porque essa é nova”.
Transformado em folião, tomo todas no almoço. Carboidrato é importante por isso como metade de uma lasanha. Ao som de Chupa Toda, vou tirar um cochilo vespertino com minha rainha do lar. Acordo acabado. Dor de estômago, cabeça e enjoado. Por um instante, deixo de ser o folião.
Final de tarde, é hora de se arrumar. Calço o tênis, escolho a bermuda e visto a camisa tomando cuidado para não cortar os patrocinadores, afinal, eles são os donos dos espaços da festa. Hoje o carnaval da Bahia é controlado por empresas que convidam quem elas quiserem para a folia. Todo arrumado, espero mais meia hora por minha companheira de folia.
Chego ao meu destino de táxi. “Ivete lançou uma música nova”, comenta o motorista. Já imagino qual seja. Dentro do camarote, noto o deslumbramento. Todo vermelho, imitando um cinema antigo, abastecido de tudo que alimenta os pecados capitais, o templo do carnaval corporativista. Inicia-se a festa. Trios passam na frente, comidas e bebidas atrás. A seqüência se repete por toda a noite.
Começando a ficar entediado com a rotina do evento, aumento o ritmo da bebida. A rainha do lar se diverte com os blocos na frente do camarote. Esqueceu-se de mim. Naquela imensidão, descubro um banheiro com ar condicionado, cinema para quarenta lugares, salão de beleza e uma pista de dança. Junto a ela, uma mesa com centenas de cachos de uva. Vou começar a chupá-las.
Abandonado naquele momento, danço, bebo e chupo uvas. A bebida começa a fazer efeito na maioria do camarote. Dondocas, loiras artificiais, figuras deformadas pelo Botox, mulheres se equilibrando em cima de saltos altíssimos formavam o cenário do momento. Um trio passa na avenida. Não é Ivete, mas cantava como se fosse. Àquela altura, eu já sabia todas as coreografias do carnaval. Já tinha cometido metade dos sete capitais.
Confiro se minha esposa está no mesmo lugar na frente do camarote e continuo com minha rotina carnavalesca, transformado em folião.
Incentivado pela quantidade de bebidas servidas, me animo. Será alucinação ou uma morena de um metro e oitenta aproxima-se de mim? É ela, Luiza Brunet. Nervoso, bebo mais espumante e chupo o dobro de uvas. Ela pára ao meu lado e dança com rara elegância. Fico deslumbrado, esqueço a rainha do lar. Agora entendo por que as empresas patrocinam artistas para irem ao carnaval. Ali, ao lado de uma celebridade, passo a ser uma também.
Com zero de vergonha, ofereço um cacho de uva e, para minha surpresa, ela aceita. “Uva com Champanhe é ótimo”, disse a deusa. Quase desmaiando, alimento a conversa. “… e aí, está gostando do carnaval?”; “… as músicas são legais, não são?”. Não é que ela responde a essas perguntas idiotas? “O carnaval da Bahia é legal. Adoro Ivete”, afirma. “Qual a música que você mais gosta?”, pergunto já apaixonado. E, na hora da resposta, olho para frente, na direção do lugar reservado à minha “marida” e vejo aquele antigo pontinho aumentar, ficando do tamanho de uma exclamação. Ela chega ao meu lado e ouve a resposta de Luiza: Chupa Toda!!!!!
Lívio Félix