Seiscentos cafés

Entradas desde Fevereiro 2007

Carnaval em Salvador

Fevereiro 21, 2007 · Deixe um Comentário

Carnaval em Salvador

 

 

Às vésperas do carnaval, Salvador vira sinônimo de festa. Foliões por toda parte.  Música, alegria, diversão para todos os gostos e todos os bolsos.  O curioso é que, nesse momento do ano, a “identidade” baiana tão falada pelos turistas se desconfigura.  Salvador deixa de ser aquela pacata cidade da Bahia para tornar-se Salvador, a capital do axé e do carnaval. Em lugar da terra tranqüila, marcada pela chamada “malemolência”, configura-se, agora, uma cidade de ritmo acelerado, onde os corpos se misturam entre as multidões, e se embalam com as danças animadas, músicas diferenciadas, pulos e gritos ao redor do trio.

  

             Agora, para o observador, o que antes era vício vira virtude. Esses mesmos turistas, aqueles que tanto falaram mal e nos chamaram de preguiçosos, vêm passar o carnaval conosco. Eles são muitíssimo bem-vindos. Corroboram e desempenham papel fundamental no setor terciário de nossa economia como protagonistas da “indústria sem chaminé”. Por trás de toda essa festa, existem inúmeros empregos gerados, trabalhadores que acordam cedo para pegar no batente. São cordeiros, barraqueiros, vendedores com isopor, catadores de latinha, etc. Aliás, não é só em festa que têm trabalho. A cidade não pára. O ritmo constante, frenético, característico desse período, constrói, sim, um estado de alegria e brincadeira, mas ele não é permanente. Aqui, existem pessoas que trabalham muito, seja de maneira formal ou informal, dando duro para sobreviver.

Tiara Rubim

Categorias: Crônicas

A alegria disfarçada

Fevereiro 15, 2007 · 2 Comentários

A Alegria disfarçada

 

 

                  No momento em que a cidade pára em meio aos pés que se desprendem do chão e aos quadris que rebolam para lá e para cá, crianças disputam as latas que são jogadas em meio aos foliões; como se cada resto de alumínio fosse uma migalha de comida. Enquanto uns trabalhos são paralisados em prol da gandaia, outros são simples e valiosos. No instante em que a cidade encontra-se deserta ao mesmo tempo ela se faz completa, nos demais espaços limitados; pois a cidade só existe porque o povo lhe dá a vida.      

                Os trios passam recheados de celebridades, arrastando uma multidão de dinheiro e poder. É só isso o que as câmeras conseguem mostrar para todo o resto do mundo. As faces são preços, valores. O que realmente está por trás daqueles sorrisos não poderá nunca ser revelado pela mídia. São apenas belos rostinhos comprados. Pessoas que se submetem a uma falsa alegria, uma felicidade momentânea; a fim de tentar cobrir por alguns dias a realidade que as cerca.

               Os que podem esbanjar dinheiro investindo em blocos e camarotes conseguem garantir um carnaval privatizado por cordas e espaços reservados, que mantém sossegados aqueles que mandam. Já outros indivíduos fazem total sacrifício pelas esmolas jogadas por toda a indiferença do governo e das elites. O espetáculo precisa ser transmitido, nem que para isso homens e mulheres precisem rasgar as mãos e desperdiçar o seu suor em meio ao cabo-de-guerra ao qual se submetem, em prol do pão de amanhã.

Daiane Sales

Categorias: Crônicas

Tem que ter carne

Fevereiro 14, 2007 · Deixe um Comentário

TEM QUE TER CARNE

         Ao contrário do que o leitor deve estar pensando só por ler o título, não sou nenhum antivegetariano ou coisa parecida. Gosto muito de carne e não dispenso um bom churrasco, mas não é da carne própria para degustação à qual estou me referindo.
Falo da carne humana. E o leitor, rapidamente, imagina que sou canibal. É interessante a forma com que identificamos as palavras e o cérebro as codifica e transforma as nossas opiniões.

          Mas a carne humana, pelo menos para mim, não serve para ser comida. Quando me manifesto e afirmo que mulher boa é mulher que “enche uma cama”, é mulher que tem carne, que tem onde pegar, digo que o estereótipo de manequim não vale de nada. Ah… Até hoje a propaganda do sabonete Dove me traz boas lembranças. Aquelas modelos “cheinhas”, “rechonchudinhas” e, simplesmente, lindas.

          Não estou aqui para defender mulheres obesas. Quero defender aquelas que não se preocupam em ter o corpo da Galisteu ou da Gisele Bundchen. Não acredito nesse “modelo de modelos” que as revistinhas semanais colocam na capa: “Tenha o corpo da Ana Paula Arósio”, “Sinta-se como a Altenhofen”. Essas revistas enchem o saco completamente, e olha que o meu só agüenta o peso de duas bolas. Pára com isso!

            Mulher, para mim, tem que ter carne. Eu preciso apertar, mordiscar. Será que só eu sinto prazer no pegar? Mulher tem que ter aquela gordurinha a mais, pois é o que dá charme. Não me preocupo com estrias, celulite, gordura localizada, etc. Me preocupo com a academia, com a quantidade de abdominais, flexões e pedaladas. Não me preocupo se o manequim é 42 ou 44. Me preocupo com um novo número inventado pela indústria têxtil norte-americana: ZERO. Imagino a propaganda dizendo “As anoréxicas estarão sempre na moda. ZERO no manequim, ZERO de gordura, ZERO de açúcar, ZERO de energia, ZERO de saúde…”

            Eu teria medo de transar com uma mulher dessas. Imagino desmontando aquela estrutura puramente óssea, ficando sem saber remontar pois não há manual de instruções. Modéstia à parte, eu tenho um fogo dos diabos. Quando tem carne, ninguém me segura.

             Eu não tenho um padrão definido de “rechonchudez”, não precisa ser muito, mas tem que ter carne. Para apertar, mordiscar…

Cleber Silva

(Cleber escreve aqui: http://www.acarajeenvenenado.blogspot.com/)

Categorias: Crônicas

Mais um poeta

Fevereiro 14, 2007 · 4 Comentários

Mais um poeta

 

Às vezes me pergunto

se sou poeta de nascença

ou será que sou poeta de sobrevivência?

Pois só a poesia me faz viver,

desperta-me para o amanhecer,

livra-me da angústia de amores

e paixões mal resolvidas,

limpa meu coração,

ilumina minha alma.

Por isso, mais do que poeta

de nascença ou de sobrevivência ,

eu sou o fruto da poesia,

sou um poeta do amor

da vida, da ilusão.

Sou poeta por necessidade

de escrever e desabafar,

colocar para fora

meus sentimentos sufocados.

Por isso sou poeta.

Sim, sou mais um poeta!

 

Sara Regina 

(Sara publica suas fotos aqui: www.olhares.com/saramoby )

Categorias: Poemas

Eu escrevo!

Fevereiro 13, 2007 · 1 Comentário

O mundo necessita de pessoas que tenham o hábito da escrita. Através dela é que modificamos, influenciamos, libertamos, aprendemos. Podemos mudar de vida só por ter lido algo que tenha influenciado nossa maneira de pensar.  A leitura transcende. Por isso a leitura é tão importante quanto a interpretação que se faz dela.

Eu escrevo para mim. Sei que isso vai mudar.”

(Uende Natane)

___________________________________________________________

“Quando escrevo, sinto-me relevante e imponente diante da liberdade que me é conferida pela escrita. Cada texto é um desafio novo e um aprendizado novo. (…) sei que esta arte é difícil e delicada, mas me arrisco sempre, pois esse para mim é o melhor dos riscos.” 

(Daiane Santiago)

_____________________________________________________________

Mais? Mais tarde… Aguarde. (Ih, rimou!)

Categorias: Livre pensar

Provocação na aula dos calouros

Fevereiro 13, 2007 · 2 Comentários

Na aula que passou, provoquei os calouros com as perguntas: eu escrevo para quê? Por que eu escrevo? E para que e por que eu escreverei? Qual é a minha história com a escrita?

De presente, ofereço a ‘resposta’ poética de Paulo Leminski:

Razão de ser

 Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso,

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,

E as estrelas lá no céu

lembram letras no papel,

quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê? 

(LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. Seleção Fred Góes e Álvaro Marins. 4.ed. São Paulo: Global, 1999. p.133

___________________________________________________________________

No próximo post, as respostas dos alunos. E você? Por que e para que escreve?

Categorias: Acontece na aula

Chupa Toda !!!

Fevereiro 9, 2007 · 1 Comentário

 Chupa Toda!!! 

Acordo como em qualquer dia. Pessoa comum, bem apessoada, pai de família, mas hoje amanheço diferente. Como se fosse um personagem de Kafka, sofro uma metamorfose. Sou um folião.

Olho para o lado e vejo o troféu tão desejado. São dois, bem passados a ferro, um para mim e outro para minha rainha: a camisa do Camarote de Daniela. Levanto para o banho especial, afinal é carnaval. Barbeado, entro no chuveiro e inicio o ritual. Muito sabão e xampu com uma música lá longe na cabeça. Será verdade? É Ivete que canta no meu chuveiro. “Chupa Toda”. O banho dura quarenta minutos, afinal, banhar-se com a musa do carnaval cantarolando em sua mente não é para qualquer um.

Com a energia renovada, noto que, nos troféus, aparecem adereços. Colares, fitinhas e tudo que brilha. Faz parte da folia. Como bom folião, preparo o tira-gosto para esperar a hora de ir para o camarote. “Filha, bote uma musiquinha para animar”, digo. Abrindo a primeira do dia, escuto uma melodia conhecida. Não diga: é Chupa Toda! “Aumenta o som porque essa é nova”.

Transformado em folião, tomo todas no almoço. Carboidrato é importante por isso como metade de uma lasanha. Ao som de Chupa Toda, vou tirar um cochilo vespertino com minha rainha do lar. Acordo acabado. Dor de estômago, cabeça e enjoado. Por um instante, deixo de ser o folião.

Final de tarde, é hora de se arrumar. Calço o tênis, escolho a bermuda e visto a camisa tomando cuidado para não cortar os patrocinadores, afinal, eles são os donos dos espaços da festa. Hoje o carnaval da Bahia é controlado por empresas que convidam quem elas quiserem para a folia. Todo arrumado, espero mais meia hora por minha companheira de folia.

Chego ao meu destino de táxi. “Ivete lançou uma música nova”, comenta o motorista. Já imagino qual seja. Dentro do camarote, noto o deslumbramento. Todo vermelho, imitando um cinema antigo, abastecido de tudo que alimenta os pecados capitais, o templo do carnaval corporativista. Inicia-se a festa. Trios passam na frente, comidas e bebidas atrás. A seqüência se repete por toda a noite.

Começando a ficar entediado com a rotina do evento, aumento o ritmo da bebida. A rainha do lar se diverte com os blocos na frente do camarote. Esqueceu-se de mim. Naquela imensidão, descubro um banheiro com ar condicionado, cinema para quarenta lugares, salão de beleza e uma pista de dança. Junto a ela, uma mesa com centenas de cachos de uva. Vou começar a chupá-las.

Abandonado naquele momento, danço, bebo e chupo uvas. A bebida começa a fazer efeito na maioria do camarote. Dondocas, loiras artificiais, figuras deformadas pelo Botox, mulheres se equilibrando em cima de saltos altíssimos formavam o cenário do momento. Um trio passa na avenida. Não é Ivete, mas cantava como se fosse. Àquela altura, eu já sabia todas as coreografias do carnaval. Já tinha cometido metade dos sete capitais.

Confiro se minha esposa está no mesmo lugar na frente do camarote e continuo com minha rotina carnavalesca, transformado em folião.

Incentivado pela quantidade de bebidas servidas, me animo. Será alucinação ou uma morena de um metro e oitenta aproxima-se de mim? É ela, Luiza Brunet. Nervoso, bebo mais espumante e chupo o dobro de uvas. Ela pára ao meu lado e dança com rara elegância. Fico deslumbrado, esqueço a rainha do lar. Agora entendo por que as empresas patrocinam artistas para irem ao carnaval. Ali, ao lado de uma celebridade, passo a ser uma também.

Com zero de vergonha, ofereço um cacho de uva e, para minha surpresa, ela aceita. “Uva com Champanhe é ótimo”, disse a deusa. Quase desmaiando, alimento a conversa. “… e aí, está gostando do carnaval?”; “… as músicas são legais, não são?”. Não é que ela responde a essas perguntas idiotas? “O carnaval da Bahia é legal. Adoro Ivete”, afirma. “Qual a música que você mais gosta?”, pergunto já apaixonado. E, na hora da resposta, olho para frente, na direção do lugar reservado à minha “marida” e vejo aquele antigo pontinho aumentar, ficando do tamanho de uma exclamação. Ela chega ao meu lado e ouve a resposta de Luiza: Chupa Toda!!!!! 

 Lívio Félix

Categorias: Crônicas

Eu só queria a sua companhia no samba…

Fevereiro 9, 2007 · Deixe um Comentário

Eu só queria a sua companhia no samba…

 

Luana Rocha

 

  

Veste a nova saia rodada,

Faz um penteado bem bonito,

Calça a velha sandália rasteira

E, por onde vai, arranca suspiros.

 

 

O pedreiro pára de preparar o cimento.

O garçom derruba a cerveja.

As beatas se traem com o segundo pecado capital.

O mundo parece sorrir.

 

 

Raio de sol!

Anja!

Boneca de porcelana!

Bela mulher!

 

 

Dentro dela, nada adianta:

Belo mar, belo sol, bela areia…

Belas pernas, belos cabelos, belo ventre…

Ah!Se soubéssemos o que a atormenta…

 

 

Homens fariam loucuras pelo seu sorriso:

Poderiam matar e roubar.

Quando ela chega no samba,

Tudo parece se iluminar.

Povoa o sonho dos machos da província.

 

 

Entretanto…

O seu sorriso não existe,

O seu samba tem cadência triste.

Dizem que fôra abandonada

E por isso não quer mais nada.

 

 

Dentro daquele olhar,

Ele sabe que pode entrar.

Preciso encontrar o espaço.

A porta está aberta.

O caminho é livre.

 

 

Às vezes, pega um sorriso de canto.

Um olhar de desalento

De menina dengosa e carente.

Vou aí te buscar, pequena!

Desbravar esse mundo.

Ruas, avenidas, galerias,

Corredeiras, matas e animais.

Quando parar em lugar seguro.

Tocar no teu rosto e esperar teu sorriso.

Nada mais.

 

 

Sempre quis tua companhia no samba!

 

 

Teu olhar agora brilha,

O seu sorriso ilumina a escuridão.

O samba é de Abre-Alas…

Como é bom te ter no meu samba!

    

 

Categorias: Poemas

Filas

Fevereiro 9, 2007 · Deixe um Comentário

Filas

                      Quem nunca sofreu em uma longa espera na fila?

                 A vida é assim mesmo. O pior é que já começa desde cedo… No maternal! Aprendemos logo a ser pacientes. E tem até musiquinha: “Quem vai chegando, vai ficando atrás, menino educado é assim que faz”…E somos rigorosamente educados para isso. Ou seria adestrados?

                 No meu tempo de escola, tinha a fila da merenda, a fila para ir ao banheiro, para beber água e até para brincar no parquinho. Certa vez, cansado desta triste realidade, resolvi furar a fila e o que ganhei como prêmio foi um puxão de orelha da professora.No meu longo percurso de uma vida cheia de filas, já peguei filas de ônibus, de bancos, de supermercados, de padarias, farmácias… Quem foi o filho da puta que inventou a fila? Se Deus criou o mundo, o homem, os animais, a natureza…

                 Acho que o diabo criou a fila, pois talvez Deus estivesse cansado de arquitetar tanta coisa e incumbiu o “chifrudo” de tal tarefa. E o que mais me entristece é o simples fato de saber que ainda tem muita fila para pegar…Tem a fila do caixa eletrônico, do estacionamento, do INSS… Tem até fila para morrer… E, quando uma pessoa morre, outra fala: “A vez dele chegou”!

                 Lembro-me de uma festa a que fui há tempos atrás. Tentando chegar ao evento, a caminho do estacionamento, tinha uma fila única de carros. A quantidade de veículos era enorme e logo surgiram ramificações… Ao lado esquerdo, uma fila de carros daqueles que queriam furar a fila. Logo mais adiante, tinha outra fila de automóveis que tentavam furar a fila dos que estavam furando a fila.

                  Absurdo! Esse é o tal jeitinho… Brasileiro!Bom… Supostamente, estamos tão acostumados a pegar fila que às vezes nem notamos quando estamos em uma e, quando nos damos conta, perdemos a nossa vez. Através de deduções que se baseiam em experiências empíricas, aprendi a respeitar as filas. Fazer o quê? Afinal, a vida é uma fila! O único problema é que tem fila que dura uma vida! 

______________________________________________________________________________

Iure Cardoso

(Aluno da disciplina OLET 3, turno matutino, Jornalismo.)(Professora Alena Cairo)

Categorias: Crônicas

Um dia na Ribeira

Fevereiro 9, 2007 · Deixe um Comentário

Um dia na Ribeira

                 Poderia ter sido mais uma terça-feira, um mero dia após a segunda estressante. Os carros, desde cedo, já exploravam as suas buzinas e as pessoas iniciavam a cotidiana marcha ao trabalho, a maioria delas com preocupação e tristeza estampadas na face. Mal amanhecera o dia e já se respirava um ar de estresse e nervosismo na cidade. Casualmente, eu não escaparia de ser mais um, triste e preocupado, marchando à labuta. Mas, com a folga que tirei da empresa, a minha rotina seria quebrada, pude despertar aquela manhã com um peso menor em meu corpo. Sabia que o dia que me aguardava não seria tão árduo assim como os outros. O máximo de esforço que faria seria tirar umas fotos, conversar com algumas pessoas e observar o cotidiano.

                Encontrei a amiga e colega de faculdade Ana Teka, e, no seu rosto, ainda que sonolento, um sorriso me indicava que o dia seria interessante. Ela iria acompanhar-me nesse trabalho da faculdade. Tomamos um ônibus e passei quase todo o percurso da Barra à Ribeira fazendo e recebendo ligações da empresa, somente para ter a certeza de que tudo correria bem no trabalho e que, mesmo longe, eu poderia ficar tranqüilo. Mesmo ocupado, os meus olhos atentos não deixavam de observar a paisagem que, aos poucos, ia se modificando. Mas, uma frase interrompeu o clima de observação: “Ei, vocês dois! É aqui”, sinalizou o motorista, o fim de linha da Ribeira.

                De primeira, uma sensação de paz e tranqüilidade tomou conta de mim, logo percebi que estava apenas interiorizando aquilo que o ambiente me proporcionava. Um silêncio reinava no lugar e o semblante de alegria e satisfação era notável no rosto das pessoas. Já não tinha mais dúvidas de que o meu dia seria realmente diferente de todos os outros. Avistamos a praia e senti que estávamos a apenas alguns passos do paraíso. Todos brincavam, namoravam, jogavam, enfim, verbos que, geralmente, proporcionam felicidade. Mas, até mesmo os que trabalhavam: vendendo, servindo ou pescando, mostravam-se felizes no que faziam.

                  Sem muito esforço, iniciei um processo de transformação e adaptação às pessoas e ao lugar. Deixei de lado todos os problemas e estresses da vida cotidiana, qualquer coisa que fosse capaz de ameaçar a minha momentânea tranqüilidade. Resolvi ser feliz! Descobri que, como todos que ali estavam, eu também tinha o direito de buscar a minha felicidade, e a busquei.

                   Horas depois, me encontro sentado no cais da Ribeira, observando o balé dos barcos, a imensidão do mar e o encanto do trem que passava do outro lado. Eu apenas observava e observava.

                    Terminei a tarde com a inocência e a tranqüilidade de quem estivesse apenas começando a vida, uma criança! Sem estresses, economias ou dietas, me permiti um sorvete de duas bolas na prestigiada sorveteria da Ribeira. E brinquei, me esbaldando de sorvete e alegria, sem medo de ser feliz, em uma terça-feira, que antecedeu mais uma quarta estressante. ______________________________________________________________________________ 

Bruno Sales

(aluno de Jornalismo, disciplina OLE, professora Alena Cairo)

Categorias: Crônicas